/

El Niño e o calendário agrícola em Mato Grosso

El Niño e o calendário agrícola em Mato Grosso

Por Jojhy Sakuragi, Meteorologista | Dr. em Meteorologia | Plataforma Mentor

Mensagem principal: El Niño forte aumenta a atenção, mas não define sozinho se Mato Grosso terá chuva abaixo ou acima da média. Para a lavoura, o risco mais importante está na irregularidade das chuvas, no atraso do início da estação chuvosa, nos veranicos e na coincidência desses fatores com fases críticas da soja.

Histórico dos El Niños fortes

 

Ao longo das últimas décadas, alguns episódios de El Niño se destacaram pela intensidade das anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) no Pacífico Equatorial Central (região conhecida como Niño 3.4). Neste artigo, foram considerados como períodos de El Niño forte os trimestres móveis ou meses em que a anomalia Niño 3.4/ONI superou +1,5°C, usando esse valor como critério operacional de intensidade.







Figura 1. Eventos de El Niño forte identificados pela anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4. Eventos com anomalia superior a +1,5°C foram considerados fortes (círculos vermelhos).

A figura ajuda a visualizar que diferentes safras ocorreram sob influência de eventos intensos. No entanto, o fato de um El Niño ser forte não significa que seus impactos sobre Mato Grosso sejam sempre iguais. Em algumas safras, houve redução das chuvas e maior irregularidade. Em outras, a precipitação ficou próxima ou até acima da média em parte do estado.

O padrão clássico do El Niño no Brasil

 

No Brasil, os impactos do El Niño costumam ser descritos por dois polos principais. O primeiro aparece no Norte e em parte do Nordeste, onde o fenômeno tende a aumentar o risco de chuva abaixo da média, temperaturas mais elevadas, seca, queimadas e estresse hídrico. Esse padrão está associado às mudanças na circulação atmosférica tropical, que podem dificultar a formação e a manutenção de áreas de instabilidade.

O segundo polo ocorre com mais frequência no Sul do Brasil. O sinal mais comum é o aumento do volume acumulado de chuva, associado não necessariamente a maior número de frentes frias, mas à maior persistência dos sistemas de instabilidade, ao bloqueio atmosférico, ao jato subtropical mais ativo e ao transporte de umidade.

Entre esses dois polos está o Centro-Oeste. Mato Grosso ocupa uma faixa de transição, onde os impactos do El Niño podem variar bastante conforme a organização da ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul), a atuação dos corredores de umidade amazônicos, a passagem de frentes frias, os bloqueios atmosféricos e as condições do Atlântico Tropical.

Região

Sinal mais comum em El Niño

Riscos agrícolas frequentes

Norte e parte do Nordeste

Maior risco de chuva abaixo da média e calor

Seca, estresse hídrico, queimadas e atraso na regularização das chuvas

Sul do Brasil

Maior risco de chuva acima da média

Excesso de umidade, temporais, dificuldade operacional e doenças

Mato Grosso / Centro-Oeste

Faixa de transição, com resposta mais variável

Irregularidade das chuvas, veranicos e risco dependente da fase da safra

Tabela 1. Síntese dos sinais climáticos mais frequentes associados ao El Niño no Brasil e seus principais riscos agrícolas. Mato Grosso/Centro-Oeste aparece como faixa de transição, onde os impactos tendem a ser mais variáveis e dependentes da organização regional das chuvas.

O que foi analisado em Mato Grosso

 

Para avaliar se os eventos de El Niño forte produziram um padrão claro em Mato Grosso, foram analisadas duas dimensões: a precipitação diária em quatro regiões do Estado e a produtividade média da soja nos mesmos municípios, além da média estadual de Mato Grosso como referência.

Na precipitação, foram avaliados dados diários de Sapezal, no oeste; Sinop, no centro-norte; Nova Mutum, no centro; e Alto Garças, no sul. Na produtividade, foram utilizados dados médios municipais da soja para esses quatro municípios, com série histórica desde 2000/01, e a média estadual de Mato Grosso, informada com base na série de produtividade da CONAB. Os quatro municípios foram usados como pontos representativos de diferentes regiões produtoras, mas não substituem uma análise espacial completa de todo Mato Grosso.

Quais dados e metodologia foram utilizados na análise

 

·  Série diária de precipitação: 1980 a 2026.

· Municípios analisados: Sapezal, Sinop, Nova Mutum e Alto Garças.

·  Produtividade média municipal da soja: série de 2000/01 a 2025/26 para os quatro municípios analisados.

·  Produtividade média estadual: série de Mato Grosso usada como referência geral, com base em dados da CONAB.

· Eventos avaliados: safras com meses de El Niño forte, definidos por anomalia de TSM superior a +1,5°C.

·   Comparação da chuva: precipitação mensal observada contra a média climatológica local de 1991-2020.

·  Veranico: sequência de 7 ou mais dias com chuva inferior a 1 mm após o início da estação chuvosa.

· Comparação da produtividade: produtividade observada nos anos de El Niño forte contra a média das demais safras e contra a tendência histórica de cada município.

Nesse estudo, adotou-se operacionalmente veranico como uma sequência de 7 ou mais dias com precipitação diária inferior a 1 mm após o início da estação chuvosa.

O objetivo não foi prever uma safra específica nem atribuir a produtividade exclusivamente ao El Niño, mas verificar se El Niños fortes produziram sinais consistentes de impacto sobre chuva e produtividade em diferentes regiões de Mato Grosso.

O que os resultados mostraram

1. Análise da precipitação


Os resultados de precipitação confirmam que a resposta não foi uniforme. Em alguns eventos de El Niño forte, como 1982-83, 1991-92 e 2009-10, a chuva foi mais favorável em vários pontos analisados. Em outros, como 1997-98, 2015-16 e 2023-24, predominou um comportamento mais seco, com maior irregularidade das chuvas e ocorrência de veranicos.

Evento de El Niño forte

Sinal observado nos dados

Interpretação para a agricultura

1982-83

Mais chuvoso em vários pontos

El Niño forte também pode coincidir com chuva favorável.

1991-92

Mais chuvoso nos quatro pontos

Intensidade do El Niño não se traduz automaticamente em seca.

1997-98

Mais seco nos quatro pontos

Evento forte com impacto negativo claro na chuva.

2009-10

Mais chuvoso, mas com veranicos

Bom acumulado não elimina risco por má distribuição.

2015-16

Mais seco e com veranicos

Aumentou o risco por falhas na distribuição da chuva.

2023-24

Mais seco em todas as áreas

Forte sinal de irregularidade e déficit de chuva.

Tabela 2. Produtividade média da soja em anos de El Niño forte, comparação com as demais safras e diferença ajustada pela tendência histórica. A média estadual de Mato Grosso foi incluída como referência geral.

Também houve diferenças regionais. Sinop e Alto Garças apresentaram sinal mais negativo no conjunto dos eventos avaliados, enquanto Sapezal e Nova Mutum tiveram resposta menos intensa. Mesmo assim, nenhum ponto apresentou comportamento totalmente padronizado em todos os El Niños fortes.

2. Comparação com a produtividade da soja

 

A produtividade foi analisada para verificar se os anos de El Niño forte coincidiram com queda produtiva nos mesmos municípios usados na análise de precipitação. Na série de produtividade desde 2000/01, os eventos fortes considerados foram 2009/10, 2015/16 e 2023/24. A média estadual de Mato Grosso foi incluída como referência geral.

Como a produtividade da soja aumentou ao longo do tempo por tecnologia, genética, manejo, correção de solo e eficiência operacional, a leitura mais importante é a diferença ajustada pela tendência. A tendência histórica foi estimada por regressão linear simples da produtividade ao longo das safras, e a diferença ajustada representa o desvio em relação ao valor esperado pela tendência. Esse indicador compara os anos de El Niño forte com o nível esperado para cada município naquele momento da série histórica.

Região / referência

Média em El Niño forte (sc/ha)

Média nas demais safras (sc/ha)

Diferença bruta (sc/ha)

Diferença ajustada pela tendência (sc/ha)

Leitura

Sapezal

52.6

54.8

-2.2

-4.6

Sinal negativo consistente na amostra

Nova Mutum

52.6

55.9

-3.3

-5.5

Sinal negativo consistente na amostra

Sinop

50.3

53.7

-3.3

-5.6

Sinal negativo consistente na amostra

Alto Garças

52.6

53.4

-0.8

-3.5

Sinal negativo moderado

Mato Grosso – média estadual

51.5

56.2

-4.6

-4.8

Sinal negativo forte

Tabela 3. Produtividade média da soja em anos de El Niño forte, comparação com as demais safras e diferença ajustada pela tendência histórica. A média estadual de Mato Grosso foi incluída como referência geral.

O resultado mostra que os anos de El Niño forte ficaram abaixo da produtividade esperada tanto nos quatro municípios analisados quanto na média estadual de Mato Grosso. O sinal negativo foi mais intenso em Sinop, Nova Mutum e Sapezal, enquanto Alto Garças apresentou redução menor. A média estadual apresenta o mesmo sinal na amostra analisada, indicando que os eventos de El Niño forte analisados coincidiram com produtividade abaixo da tendência histórica, sugerindo aumento de risco de produtivo, embora sem permitir atribuição causal isolada ao ENSO.

Esse resultado não significa que o El Niño explique sozinho a produtividade. A resposta final depende da distribuição das chuvas, dos veranicos, das temperaturas, da fase da cultura, do manejo e das condições locais. Ainda assim, o cruzamento entre precipitação e produtividade reforça que El Niño forte aumenta o risco de perda produtiva quando coincide com fases críticas da soja.

Como isso entra no calendário agrícola

 

Para o produtor, a leitura mais importante não é apenas saber se o El Niño será forte, mas identificar em que momento ele estará mais intenso e se esse período coincide com fases sensíveis da lavoura. Como um dos principais índices do ENSO (El Niño/Oscilação Sul) é frequentemente divulgado em médias trimestrais móveis, uma forma simples de comunicar o risco agrícola é usar o mês central de cada trimestre.

Essa leitura ajuda a transformar um índice climático em uma informação operacional. Um El Niño forte durante o plantio tem um tipo de risco: atraso na regularização das chuvas, falha de emergência e redução da janela de plantio. Já um evento mais intenso durante o florescimento ou enchimento de grãos pode aumentar o risco de perda produtiva por déficit hídrico ou veranicos.

Mês central

Trimestre ENSO

Fase da soja

Sensibilidade

Principal risco

Outubro

SON

Plantio

Muito alta

Atraso das chuvas e falha de emergência

Novembro

OND

Estabelecimento

Alta

Veranicos e perda de estande

Dezembro

NDJ

Florescimento e formação de vagens

Muito alta

Déficit hídrico e abortamento floral

Janeiro

DJF

Enchimento de grãos

Alta

Perda de peso e qualidade

Fevereiro

JFM

Final da soja / início da segunda safra

Média a alta

Colheita, doenças ou atraso na implantação da segunda safra

Tabela 4. Leitura agrícola simplificada do ENSO usando o mês central de cada trimestre. A sensibilidade refere-se ao risco potencial para soja em Mato Grosso, considerando a coincidência entre irregularidade de chuva e fase fenológica da cultura.

E o possível El Niño 2026/27

 

Para um possível El Niño 2026/27, a principal implicação para Mato Grosso é a necessidade de planejamento com maior atenção à irregularidade das chuvas, e não apenas ao volume acumulado esperado. As previsões mais recentes da NOAA/CPC disponíveis no momento da publicação indicam condições de El Niño presentes e tendência de fortalecimento até o verão do Hemisfério Sul de 2026/27, enquanto o IRI (International Research Institute) aponta alta probabilidade de manutenção do El Niño ao longo do período crítico da safra.

Para Mato Grosso, os resultados deste estudo mostram que eventos fortes podem reduzir a produtividade, especialmente quando coincidem com atraso da estação chuvosa, veranicos, calor e fases sensíveis da soja, como plantio, florescimento e enchimento de grãos. No entanto, como o estado está em uma região de transição climática, não é adequado assumir antecipadamente um cenário único de seca ou chuva acima da média. O mais prudente é acompanhar a evolução do El Niño junto com previsões regionais, distribuição das chuvas, umidade do solo e monitoramento por radar e satélite, ajustando as decisões de plantio e manejo conforme a resposta real da estação chuvosa.

Conclusão prática: Diante de um possível El Niño 2026/27, o produtor deve tratar o fenômeno como um fator de risco e manter acompanhamento meteorológico contínuo e regionalizado. Informação atualizada sobre chuva, veranicos e janelas operacionais pode ser decisiva para ajustar o manejo e reduzir perdas ao longo da safra.

Fontes e base de dados

  • Dados diários de precipitação: arquivos de Sapezal, Sinop, Nova Mutum e Alto Garças, com série de 1980 a 2026.

  • Classificação dos eventos: meses de El Niño forte com anomalia Niño 3.4/ONI superior a +1,5 °C.
    NOAA/CPC

  • OceanicNiñoIndex(ONI): https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/ensostuff/ONI_v5.php

  • IRI/Columbia Climate School – ENSO resources: https://iri.columbia.edu/our-expertise/climate/forecasts/enso/

  • CONAB: referência para a média estadual de produtividade da soja em Mato Grosso.
    IBGE/PAM (Produção Agrícola Municipal): referência para séries municipais de área plantada, área colhida, quantidade produzida e rendimento médio da soja, individualizadas por município.
    IMEA: referência complementar para acompanhamento de safras recentes, boletins de evolução da colheita e estimativas regionais de produtividade em Mato Grosso.

Sobre o autor


Jojhy Sakuragi é meteorologista, Dr. em Meteorologia, especialista em Radar Meteorológico e em clima aplicado ao agronegócio. Atua na pesquisa e desenvolvimento de produtos digitais da plataforma Mentor, integrando dados de radar, satélite e previsão do tempo para apoiar decisões no campo, com foco em monitoramento de chuvas, veranicos e risco climático.